E então aconteceu, por mais louco e insano que parecesse, o mundo estava acabando, os maias estavam certos o mundo realmente iria acabar no dia 21 de dezembro de 2012, mas as catástrofes e desastres naturais começaram pelo menos um semana antes, em toda parte vulcões há séculos adormecidos despertaram em imensa fúria, queimando e destruindo tudo, furacões e tornados de proporções indescritíveis assolavam países que nunca antes registram esse tipo de fenômeno, tempestades que alagavam tudo, terremotos que partiam regiões ao meio e, hoje dia 20 de dezembro os primeiros meteoros começaram a cair na Terra, começaram pequenos mas todos temem e de algum modo sabem que vai piorar.
Com o próprio apocalipse acontecendo o desespero tomou contas da população mundial, pelo menos com o que sobrou da população, já que, centenas de milhões morreram em todo mundo, a loucura e a histeria estão em todo lugar e o que aumenta ainda mais essa loucura é a falta de informação. Há três dias que não existe mais nenhum sinal de meio comunicação seja ela televisa ou radiofônica e a internet foi a primeira a cair no começo dos desastres.
Os governantes de todo mundo simplesmente desapareceram, não deram sequer um aviso ou falaram sobre o que fazer ou como agir, sumiram todos e, logos depois dos meios de comunicação também deixarem de existir o caos e o terror tomaram conta de tudo. O exército ou qualquer tipo de polícia também estão extintos, não há qualquer tipo de amparo legal para as pessoas. Estão todos perdidos e desesperados, há assassinatos por toda a parte, suicídios, pessoas fazendo monstruosidades como se o fim do mundo representasse carta branca para se fazer qualquer tipo de loucura ou atrocidade afinal de contas todos iriam morrer mesmo.
E com esse pensamento de certeza que irá morrer e que deve fazer aquilo que nunca teve coragem que Carlos se dirige até a casa de sua amada, aquela que ele amou durante toda a sua vida, um amor platônico que ele sempre escondeu mas, hoje iria declarar-se pra ela. Carlos é um homem de 27 anos que viveu grande parte da sua vida em um orfanato, abandonado pelos pais ainda um recém nascido fora deixado lá e, conforme o tempo foi passando e ele envelhecendo as oportunidades de adoção diminuíam, até que um dia ele soube que nunca teria um família de verdade foi nessa época de desilusão e frustração que ele conheceu Liliane outra orfã que veio da cidade vizinha de um outro orfanato que tinha fechado as suas portas, ele então estava com 9 anos de idade e ela com 6 e uma grande amizade começou entre os dois, eles eram os únicos mais velhos que estavam ainda naquele orfanato e isso os uniu muito.
Andavam sempre junto, eram a família um do outro, e nas suas conversas infantis prometeram que nunca se separariam ficariam juntos para sempre. Certo tempo depois Liliane foi adotada por um casal, um grande choque para Carlos pois ele pensou que a tinha perdido para sempre mas no decorrer dos anos Liliane fez questão junto a seus novos pais de sempre visita-lo no orfanato nunca o perdendo de vista e, segundo ela mesmo disse um dia para Carlos quando ele perguntou por que sempre vinha visita-lo, ela respondeu:
- A gente fez uma promessa se lembra.
Foi nesse momento que Carlos se apaixonou por ela o amor que ele sentia há muitos anos se transformou em algo maior, além da compreensão mas ele nunca disse nada. Os anos passaram, Carlos com dezoito anos entrou no quartel saindo assim daquele que sempre fora o seu lar e que nos últimos anos se transformara no seu local de trabalho, como nunca foi adotado ele virou um dos funcionários do orfanato.
Liliane tinha ido morar com os pais em outro estado mas sempre mantendo contato com Carlos e assim foi durante algum tempo até que ele recebeu a notícia que os pais adotivos dela tinham morrido numa tragédia de carro e que ela iria voltar pra sua cidade pra perto dele, a única família que lhe restava.
A felicidade dentro de seu ser não tinha medidas mas essa felicidade duraria pouco tempo pois ao voltar logo depois Liliane conheceu André, por quem se apaixonou e em menos de um ano já eram casados fazendo com que Carlos simplesmente desistisse de lutar por esse amor que parecia impossível de acontecer.
Bem mas isso foi há 4 anos e agora com todo esse inferno acontecendo por toda a parte Carlos decidiu que não iria partir dessa vida sem antes falar para Liliane que a amava e, mesmo que ela não o amasse também, o que era bem provável, não importava, ele precisava falar. E assim naquela manhã ele saiu em direção da casa de sua amada, estava um calor infernal ele não sabia quanto mas com certeza era mais de quarenta graus, tudo queimava, o céu estava pintado em tons vermelhos e cinza, as ruas eram o verdadeiro caos, mas Carlos não prestava atenção em nada ele só tinha que chegar lá antes que fosse tarde demais.
Ao chegar em frente a casa ele viu André, o homem que tinha lhe tomado o grande amor de sua vida,fumando perto do seu carro, quando viu Carlos se aproximando ele veio em sua direção:
- Carlos - seu olhar era de irritação - o que você está fazendo aqui,será que nem agora com o mundo acabando você me deixa em paz - Carlos não se surpreendeu com aquilo André nunca foi com a sua cara achava-o um perigo para o seu casamento desde o princípio.
- Desculpa André mas eu preciso falar com a Lili.
- Escuta aqui cara quem você acha que é pra chamar a minha mulher de...
-Carlos!!!!!! - Liliane apareceu de dentro de casa interrompendo o início de um discussão.
Ela correu em sua direção e o abraçou forte um abraço que ele adorava receber.
-Meu Deus eu pensei que nunca mais ia te ver de novo - a felicidade em seu sorriso era genuíno.
-Eu também... eu vim até aqui por que eu preciso falar contigo Lili... eu...
-Ainda bem que você veio, nós estamos saindo agora indo pra casa dos pais do André na cidade vizinha e... bem... você sabe né é o fim de tudo é inevitável nós vamos morrer por isso que a gente decidiu passar estas ultimas horas com a nossa família sabe... nossa isso tudo é loucura.
Foi como se todo o gelo dos dois polos caíssem na sua cabeça, de repente toda a sua coragem sumiu não tinha condições de falar nada, ainda mais com André como se fosse um cão raivoso olhando com fúria nos olhos prestes a pular pra cima dele.
- Você disse que queria falar comigo?
- Sim... - ele não conseguiria falar, ele não iria falar - na verdade eu vim me despedir sabe, isso é loucura mesmo, o mundo tá acabando meu Deus, é... eu vim me despedir Lili, você é a pessoa mais especial na minha vida... é isso...
Ela o abraçou chorando durante algum tempo ficaram assim, André que já estava dentro do carro começou a buzinar e a chama-la.
- Calma André!! - ela gritou irritada e se voltou para Carlos- você também é muito especial pra mim meu querido,que droga isso não é justo a gente sempre ficou junto e agora todo esse inferno vai nos separar.
Os dois agora chorando se abraçaram novamente e Carlos falou baixinho para Liliane:
- Não é justo mesmo, eu só queria que a minha vida terminasse com você ao meu lado.
Ela o olhou surpresa pelo o que ele falou e pela forma como falou, quando pensou em falar alguma coisa Carlos se livrou do abraço e disse:
- Adeus Lili.- virou as costas e começou a ir embora.
- Espera Carlos - mas ele não esperou e continuou andando e mesmo que ela o continuasse a chama-lo ele não parou, estava desolado e irritado consigo mesmo o que ele tinha pensado, que ia se declarar pra ela no último dia de suas vidas e ela sairia correndo para os seus braços? Que besteira, ela amava o André, porque ele pensou que isso ia mudar com apenas um declaração, aliás, uma declaração que nem sequer aconteceu por pura covardia mas ainda bem pois seria pior com ela sabendo toda a verdade, uma recusa a essa altura do campeonato não ia ajudar em nada.
Ele chegou em casa, por incrível que pareça pois, o caos que ele viu no caminho de volta, o calor insuportável e, a existente ameaça de meteoros fez com que o inferno de Dante se parecesse o jardim de infância se comparado ao terror e a insanidade que existia nas ruas da sua cidade. Não restando mais nada a não ser esperar ele deitou-se em sua cama mas não dormiu, parte por causa da histeria coletiva que acontecia lá fora, um barulho que parecia que todas as pessoas do mundo estavam na porta de sua casa se lamentando e lamuriando por causa da dor e do desespero e também não dormia porque não conseguia tirar Liliane da sua cabeça pensar que nunca mais iria vê-la, apertava a sua garganta sufocando-o.
Mas a noite passou e o dia do final do mundo amanheceu mais quente do que nunca, o ar cheirava a morte, medo e suor, Carlos estava sentado na sala de sua casa que tinha uma enorme janela para a rua e dali ele via todo aquele inferno, muitos mortos em frente a sua casa, alguns carbonizados, pessoas corriam desesperadas pela calçada já que a rua toda estava trancada por veículos abandonados, ele podia ver muitas casas da vizinhança pegando fogo ou já totalmente destruídas e, pensou como era incrível que a sua e a algumas outras poucas casas ainda estivessem em pé, talvez já que ele ia morrer na mais pura solidão Deus fez com que essa morte fosse sem sofrimento.
Estava assim perdido em seus pensamentos se perguntando se realmente existia um Deus, quando de repente alguém começou a bater freneticamente na porta, já começou a pensar que alguém tentava refúgio ou simplesmente algum dos maníacos que surgiram em todo esse horror sabia da sua existência ali e tentava invadir para mata-lo. Mas antes d'ele fazer qualquer coisa ouviu uma voz e num primeiro instante não acreditou naquilo:
- Carlos!!!! Abre aqui, sou eu a Liliane, por favor abre a porta!!!!
Correndo como um louco ele foi até a entrada e abriu a porta pra dar de cara com uma Liliane apavorada e com lágrimas escorrendo pelo rosto, os dois se abraçaram durante muito tempo e ele perguntou não acreditando que aquilo estivesse acontecendo :
- O que você tá fazendo aqui Lili?!?!
- Eu... eu tinha que... eu precisava... - ela estava em choque, com certeza deve ter visto atrocidades nas ruas na verdade era até um milagre que ainda estivesse viva. Carlos a levou para a sala e tentou acalma-la e depois de uma meia hora ele perguntou de novo:
- Lili o que você tá fazendo aqui? como conseguiu chegar?
- Eu peguei o carro do André ontem pouco depois que nós chegamos na casa dos pais dele e vim, depois as ruas ficaram intransitáveis e fiz todo resto a pé.
- Mas e o André? por que você deixou ele e veio pra cá?
- Ontem o que você disse pra mim, aquilo mexeu comigo eu não podia te abandonar, não agora, eu falei isso mas ele não entendeu então eu peguei o carro e o deixei.
O silêncio tomou conta dos dois, Carlos não acreditava que aquilo estava acontecendo, ela estava ali mesmo tinha escolhido ele ao invés de André, será que ela tinha...
-Ontem você disse que foi se despedir - ela interrompeu seus pensamentos - mas depois me falou que queria morrer ao meu lado... por favor Carlos me fala a verdade... por favor eu estou sendo sincera contigo, seja sincero comigo.
Ele sorriu, sim ele seria sincero, como nunca tinha sido em toda a sua vida, ele segurou as mãos dela nas suas e disse:
- Lili... eu te amo... eu te amo desde sempre... você sempre fez parte da minha vida, na verdade você é a minha vida, eu sei que eu devia ter dito isso há muito tempo mas eu nunca tive coragem, e quando eu tive apareceu o André e as minhas esperanças terminaram... mas agora não tem nada me impedindo... eu te amo Liliane sempre te amei e sempre vou te amar... me desculpa se não disse isso ant...
Ela o abraçou e começou a beija-lo então, tudo desapareceu o medo, o fogo, os gritos, o fim do mundo tudo desapareceu a única coisa que existia era a mulher que ele amava em seus braços em um beijo que fez todos aqueles anos de espera valerem a pena.
Então de repente uma enorme luz chamou a atenção deles, olharam pela enorme janela da sala e viram... uma gigantesca bola de fogo apareceu no horizonte, um meteoro com o tamanho de 1500 campos de futebol vinha em direção a eles a uma velocidade de mais de 10 000 km por hora, o desespero nas ruas aumentou tornando-se algo insuportável de se sentir, pessoas passavam correndo com o corpo em chamas, casas desmoronavam por causa da intensidade e do poder da aproximação do meteoro, a casa de Carlos também começou a ruir.
Ele olhou para Liliane ela virou-se para ele e olhando intensamente no fundo dos seus olhos disse:
- Carlos eu te amo...
A última coisa que Carlos fez em vida foi sorrir de felicidade, um sorriso que ele talvez nunca tenha dado em toda a sua existência... depois disso foi uma explosão de luz e fogo que consumiu tudo em centenas de quilômetros quadrados em questão de segundos e apenas mais alguns minutos depois cobriu todo o planeta com chamas e morte, nada restou, o enorme meteoro os atingiu em cheio.
Então a terra voltou a ser como era no início uma enorme bola de fogo e sem vida mas, isso não importava para a alma de Carlos pois ele estaria ao lado de sua amada Liliane cumprindo assim a promessa que tinham feito quando eram crianças, que iriam ficar juntos para sempre.
By Fernando Barbosa